Conceito CORPO - MÍDIA
Denise Zenicola é Doutora em Teatro pela UNIRIO, pesquisadora do NEPAA (Núcleo de Estudos das Performances Afro-Ameríndias), professora de Técnicas Corporais na Universidade Estácio de Sá, preparadora corporal de teatro, Coreógrafa, Diretora e Bailarina.
A performance do corpo na mídia, de um lado redefine uma construção de corpo que identifica o pensamento cultural contemporâneo. E, por outro, torna-se outro corpo, criado no espaço de troca de informações. A relação corpo-mídia sugere, então, a possibilidade de um vasto e desconhecido território, que as mídias inauguram.
A mídia designa, de forma genérica, os meios de comunicação, ou seja, os veículos utilizados para a divulgação de conteúdos de publicidade e propaganda. Suas fronteiras estruturam desenvolvimentos e disseminações das performances corporais.
Minha questão, neste artigo, diz respeito ao papel do corpo nesta estrutura publicitária. Para estabelecer um cenário de discussão da performance do corpo na exposição das mídias publicitárias, proponho uma pergunta inicial. Por que o uso do corpo é consumado tão facilmente nas mídias? Via de regra, o corpo referência na publicidade tem algumas mesmas qualidades: é cheio de ginga, é jovem e sensual, branco, saudável, apresenta proporções ideais, riso fácil e principalmente, é feliz, muito feliz. Um corpo que move-se em grande equilíbrio em seu eixo apolíneo. Esse corpo não sua, fede ou desalinha-se. É o corpo utópico, congelado nas características mais aceitas, bem como a ‘síntese ideal’ de todas as fases do corpo humano: a alegria da infância, a força física da juventude, a segurança da maturidade, a experiência e sabedoria da velhice.Tudo que não cabe neste padrão é banido. Este corpo selecionado assegura, então, total articulação a uma estrutura de mercadorias e oferece um vislumbre da cultura formada no e em torno do mundo ficcional publicitário.
Neuroses, medos, desgastes da ação do tempo, todos são empurrados para debaixo do tapete, eliminados no photoshop midiático. Os corpos midiáticos são mitos e, como tal, “não são um reflexo das condições em que vive a grande maioria do povo”, mas uma síntese metafórica que sofre constantes seleções e “transposições” de traços e características que vão sendo selecionados ao longo dos tempos (CANCLINI, 1997: 170).
Este corpo, então, funciona como um corpo mítico, um corpo selecionado e “construído num espaço de relações e confrontos entre as culturas”, preferencialmente a dominante, ou seja, a que pode comprar. “Tal corpo movimenta-se articulando e costurando, no conjunto de práticas corporais, as peculiaridades que identificam seu povo” (consumidor) no passado e na atualidade (ZENICOLA, 2005:168). Para compreender os caminhos deste corpo midiático em sua dinâmica social, é preciso observar o corpo em performance. Fica evidente que o movimento de corpo presentifica a manutenção do gesto. A performance modelar aponta para normas de valores e condutas; uma síntese de práticas corporais aceitáveis, quanto à adaptação social. Sua performance revela, além de um fim em si mesmo, a venda do desejo. Desta forma, para que tenha eficiência, restaura costume e espaço, ao apresentar seus padrões estéticos e simbólicos. O corpo midiático em performance, além de tornar-se objeto da ação descritiva do mito, é também, e principalmente, a própria performance, um fim em si mesmo, na condução do desejo e compra. O que se observa é a presença de comportamentos duplamente restaurados, (SCHECHNER, 2002: 28), e trazem em sua ação possibilidades de recriação do velho, só que com filtros. Ao acontecer, o corpo na publicidade apresenta duplamente a performance corporal da cultura que o criou, tanto uma eficiente ferramenta e forma de legitimação da identidade abstrata e coletiva – o mito, como também uma performance estética do jogo formal que acontece num tempo e espaço.
Curiosamente, ao mesmo tempo em que esta mídia promove como padrão aceito uma assexualidade ética desavergonhadamente elitista e asséptica, também evoca uma dupla via entre esse corpo criado e o desejo sempre reaceso com o corpo com o qual ele dialoga, na possibilidade de resistência dentro da sua cultura. Como este diálogo se estabelece tão facilmente? Tal como uma superfície reflexa, este corpo midiático é parceiro projetado dos desejos do outro corpo, o real, que o sustenta; o midiático está dentro do complexo do que é o corpo vivo. O que se percebe é que este corpo, criado na mídia, funciona como um corpo mítico dos deuses, no caso deuses da mídia, e está latente e pulsando no imaginário coletivo. Quando se repete um fazer publicitário, beber determinada marca de água, por exemplo, a publicidade visa e alcança o corpo real, que estará sendo saciado. Estas justaposições - dos 'efeitos da realidade' e das demonstrações reais - sugerem que a cultura do corpo na mídia é ativamente engajada no trabalho de processamento de significados culturais. Afinal, o prazer do reconhecimento é alto, a atitude apropriada mostra quem você precisa conhecer/ler/comprar para ser um membro, nem que seja por imitação apenas.
Desta forma, a performance deste corpo midiático estabelece certa mitologia e um conjunto de conceitos e metáforas ideais e idealizadas que não podem ajudar, mas reproduzir as ansiedades e preocupações da cultura contemporânea. Diariamente vemos o perfeito mediante a nossa imperfeição. Como afirma Jack Zipes, 'o resultado inevitável dos contos-de-fada mais midiados-massificados é a reconfirmação feliz do sistema que as produz’.(1) Uma crítica mais tradicional da indústria midiática provavelmente começaria pelos modos de produção capitalista pós-industrial e seguiria expondo a maneira pela qual a performance do corpo neste ambiente promove visões burguesas. É importante tentar evitar a cilada que argumenta que as mídias aumentam o controle do corpo pela sua exposição. O que se observa é que a exposição do ‘corpo perfeito’ na mídia tem ação limitada, embora produza certo conjunto de informações e reproduza as relações dominantes de poder. As mídias articulam narrativas culturais sobre o corpo, exigem a interface entre o corpo real e a mídia que o reinventa. O corpo midiatizado, já um aparato sensível, não mais simplesmente imita ou representa a realidade - ele virtualmente é recriado. Mas a diferença entre a realidade construída nos mundos da mídia e a realidade construída no mundo cotidiano traz nova indagação. Serão ambos tanto culturais quanto construções tecnológicas, plenamente representados pela mídia e outras formas cotidianas? Que realidade é criada, e como essa realidade articula relações entre performances, corpos, e narrativas culturais?
Observa-se que tais questionamentos revelam e afirmam que não há uma realidade singular; as 'realidades' construídas nas mídias na verdade incorporam os desejos daqueles que os programam.(2) Essas questões começam com o corpo material e abrem para assuntos sociais. A mídia transforma subjetividades baseadas no corpo? O que se observa é que realmente proporcionam uma ilusão de controle sobre a realidade, natureza e, especialmente, sobre o indisciplinado, o corpo essencialmente mortal e marcado por sinais de raça e gênero; o corpo real. Na verdade, a performance do corpo na mídia é mais conseqüência do que causa de mudanças sociais já em andamento. Isto é, mudanças econômicas, tecnológicas, corporais, políticas e culturais. Na performance midiática é prometido qualquer corpo que se queira, o que não diz nada a respeito do corpo que eu realmente tenho e o que eu já represento. Que formas de corporificação as pessoas escolheriam se elas pudessem?
Há suficiente evidência para sugerir que um corpo reconstruído não garante uma identidade cultural reconstruída. E nem a ‘libertar-se de um corpo’ implica que as pessoas exercerão a ‘liberdade de ser’ qualquer tipo de corpo além do que elas já gostam ou desejam. Então, apesar do fato de que as tecnologias midiáticas ofereçam um novo estágio para a construção e performance de identidades baseadas no corpo, parece que velhas identidades vão continuar a ser mais confortáveis e mais freqüentemente reproduzidas.
Concluindo, o fato de as realidades midiáticas oferecerem novos ambientes de informações não garante que as pessoas venham a usar essas informações de maneiras melhores. É mais provável que essas novas tecnologias sejam usadas primariamente para contar velhas histórias – histórias que reproduzam narrativas tradicionais sobre o corpo marcado por sinais de raça e sexo, etc, etc...
NOTAS
(1) "The instrumentalization of fantasy: fairy tales and the mass media", por Jack Zipes, em Kathleen Woodward (ed.) The Myths of Information: Technology and Postindustrial Culture. (Madison, WI: Coda, 1980) 88-110. A citação foi retirada da página 101.
(2) "The modern spectator and the postmodern participant", Photo Communique, verão de 1986: 34-45.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas. São Paulo: Edusp, 1997: 170.
SCHECHNER, Richard. Performance Studies: an introduction. London and New York: Routledge, 2002:28.
WOODWARD, Kathleen. The Myths of Information: Technology and Postindustrial Culture. Madison: WI: Coda, 1980) 88-110.
ZENICOLA, Denise Mancebo. Samba de Gafieira: performance da ginga. Tese de Doutorado. Centro de Letras e Artes, UNIRIO. Não publicado, 2005.